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After hours

11 mar

O alarme toca, anunciando minhas urgências. A solidão é gaiola, a angústia hipnotiza e alimenta. A disposição está em outro quintal. Nada é novo, não tenho par e nunca me fizeram uma canção de amor.

Não me responsabilizo por esta dor: ela está aqui, mas não é minha, não a possuo. Minhas mãos tremem, minha consciência fede; mal sei narrar tamanha aflição. Admiro os bravos, admiro os livres, admiro os que calam – e os que gritam. No meu reino, sou vagabundo – e não há mente que suporte… Eu não sei reinar. Talvez seja isso. É isso, finalmente: não me falta apenas o brilho dos reis; falta-me a quietude do palácio, a petulância de quem governa, o silêncio dos segredos e me sobram sonhos, todos eles. Em  palácios não é permitido sonhar.

Eu, você, o outro. Voutro, ou, eocê. Vejo embaçado, tropeço as palavras, não consigo respirar. Palácio, barraco. Sonhos e solidão moram em todo lugar. É que da minha janela só vejo aquilo que convém…
O alarme retoma seu ritmo. É hora! É chegada a hora. Fui eu mesma quem o programou para tocar agora. Agorinha, neste mesmo instante; mas, sigo aqui , parada. Paralisada.
Estou grata por este rascunho, por este fio de inspiração, afinal, escrever tem de servir para algo- embora no final, como eu, não sirva mesmo para nada.
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( Foto/arte por Gaby Herbstein http://www.gabyherbstein.com/ )
p.s. não a conheço, encontrei através do Pinterest.
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Après-coup

17 abr

Tá, eu voltei a fazer terapia.
Acho tão chic falar assim: “Faço terapia”. Parece coisa de rico. Mas, bem, zero glamour, por aqui: fazer análise é caro, olhar fundo nos olhos de um desconhecido é desconcertante e deitar no divã dói.
Mas, olha, há algo fundamental que me trouxe de volta a uma sessão: a convicção de que a análise, um dia, me trouxe claridade. E eu estava mesmo precisando enxergar melhor.

Algumas questões e sentimentos me levaram até a psicanálise, da primeira vez; o medo foi, sem dúvida, o ponto de partida. Mas, em seguida, vieram os questionamentos acerca do desejo, da angústia, da melancolia, da ansiedade… E eu ainda era uma menina novinha que acabara de ler “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir, e Freud não era, portanto, uma figura por quem eu tinha, exatamente, simpatia. – Curioso como tempo, disposição e profundidade são capazes de mudar conceitos que temos sobre determinados sujeitos.- Bem, vocês já imaginam: Dr. Freud virou meu guia para alguns dos mistérios (sobre mim mesma) que eu precisava desvendar.

Essa minha ligação com a arte, a afinidade acolhedora que encontrei na literatura, a sensação de conforto com as palavras, tão doídas, tão cortantes como as de alguns escritores acabaram por me ninar- afinal, uma pessoa que tem como sua bíblia “O livro do desassossego”, de Bernardo Soares (F.Pessoa), como eu, só poderia ter muito a resolver.
Veja bem, no início deste processo todo eu culpei meus pais, é claaro, hehe, mas, hoje, culpo a literatura.

***

Eu e a minha irmã, que é mais velha do que eu e nunca morou comigo, curiosamente é leonina, como eu, medrosa, como eu, corajosa, como eu (e pode? Rs), e, de analisada, acabou fazendo a formação psicanalítica, apesar  de não exercer em consultório. Caminho que eu quase segui, não fosse a minha caminhada torta pelas artes e pela Academia. Aqui em casa tem um livro presenteado por ela, chama-se “Em que creem os que não creem?”, uma coletânea de diálogos entre um ateu e um crente, Umberto Eco e Carlo Maria Martini. Eco, em uma de suas falas, suspeita: “Mas a força dos fantasmas está justamente em sua irrealidade.” (p.15). O que me remete, imediatamente, a Borges, em “O Aleph”: Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real”. E Pessoa, gente, Pessoa!:  A literatura, que é arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror (2004, p. 68). Vocês conseguem sentir a sequência lógica nisso tudo? Vocês percebem como literatura e psicanálise estão, aqui, entrelaçados, ou eu estou mesmo ficando doida? Já me diria uma ex sogra, (adivinhem!), psicanalista: “Não fica louco quem quer”. Daquelas chacoalhadas que a gente precisa ter, para acordar.

*
Guimarães Rosa, na voz de Riobaldo, repetia, incansável: “Viver é muito perigoso…” (G.S. Veredas);
Borges, em seu personagem assustado: “Viver, para mim, é um espanto muito grande.”; e Mário de Andrade, bravejava que a arte “não é só beleza; por mais pensada, é feita com carne, com sangue, espírito e tumulto de amor (Espinheira, 2001).
Assim também é a vida, mas não confundam. Hoje eu sou só devaneio.

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p.s. As referências não estão nas normas ~da ABNT~ porque isso não é um trabalho acadêmico, mas se alguém quiser tê-las, email me! ; )

 

p.s2 nesta minha anarquia, os grifos também são meus : )

 

À Diversidade- até na memória.

4 abr

Perdoem-me a insistência, mas, meu pai, protagonista de minha vida, não poderia deixar de ser aqui, também, no blog.

Quando eu tinha cinco anos meu pai sofreu um aneurisma cerebral. Foi um caso gravíssimo, ele acordou, saiu de casa para trabalhar e desmaiou no playground do prédio. Dali ele seguiu diretamente pro Albert Einstein, em São Paulo.  Foram dois meses internado, quando ele foi submetido a uma clipagem para conter o rompimento da veia na região do hipotálamo, justo uma das regiões ligadas à memória. Resumindo o caso: meu pai era considerado um mini milagre pelos médicos; minha mãe foi alertada a não cultivar esperanças, que se meu pai “voltasse”, os danos seriam incalculáveis e ele poderia, inclusive, viver em estado vegetativo. Ele não só voltou, como, quando acordou, olhou para minha mãe e perguntou: “Cadê as crianças?”

Pois bem, lance é que, no final das contas, esse foi o único pai que realmente conheci. Um pai, para mim, normal, como todos os outros, mas com um problema de memória recente, que era absolutamente natural para mim. E eu sabia que isso já era incrível, porque, apesar de ser muito pequena quando tudo aconteceu,  este episódio era sempre relembrado, volta e meia, inclusive por ele, que costumava dizer  “Tenho um clipe na cabeça e, segundo os médicos,  eu posso morrer de qualquer coisa, menos disso.” E assim foi.

Tive o privilégio de conviver 26 anos com este pai extraordinário. E as peculiaridades de um pai com problemas com a memória recente me fizeram cometer até algumas pequenas maldades na adolescência: eu chegava pra ele e pedia “Pai, me dá 10 reais?”; ele me dava. Passavam 15 minutos e eu pedia novamente; ele não lembrava e eu ganhava 10 reais outra vez. Ou então quando eu pedia pra ir a uma festa e ele, bravo, dizia “Nem pensar!” e eu “Mas, pai, falei com você ontem e você tinha deixado!”, ele, um homem de palavra, não voltava atrás e acabava cedendo. (Hahaha, não me julguem, eu era só uma adolescente!). Ele não lembrava o endereço de algumas amigas que costumava dar carona vez ou outra, assim como quando qualquer amiga ligava lá pra casa, ele dizia “Olááá, cadê você, minha querida, que nunca mais veio em casa de pobre?, era engraçado, porque algumas vezes eram somente colegas ligando por causa de algum trabalho da faculdade, pessoas que eu não tinha a menor relação, mas ele já tinha esse texto pronto, para o caso de não se recordar de um ou outro nome. Enfim, sabe aquele filme com a Drew Barrymore e Adam Sandler, “Como se fosse a primeira vez” (50 first dates)? Ele sentia a maior agonia quando passava na TV, porque dadas as devidas distâncias –que são abismais- havia alguma semelhança. Ele tinha perda da memória recente. E esse esquecimento foi o que fez, ainda, meu pai não ter tanta consciência do câncer, quando estava perto de nos deixar. Ou ele fingia que não tinha consciência, nunca saberemos.

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(Ai, meu deus! A prolixidade está tomando conta de mim, tenham paciência!)

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Isso tudo porque minha mãe insistiu (hehehe) para eu ler um Best Seller- autoajuda ontem. ~O poder do Hábito~ (haha!), justo porque o livro descreve diversos casos de pacientes com perda de memória e, naturalmente, fizemos a associação imediata. Fui comentar com ela sobre algumas similaridades e ela me contou esta história: três meses após o aneurisma, já aqui em Salvador, minha mãe acordou e não encontrou meu pai em casa. Ela, angustiada, perguntou à moça que trabalhava lá em casa e ela disse que ele tinha pegado a chave do carro e saído. Minha mãe entrou em desespero: meu pai não estava reconhecendo quase nada nem ninguém de sua vida pré-cirurgia! Acontece que aquela memória lembrava bem o significado do 18 de setembro e, provocado por este estímulo, lembrou o caminho e dirigiu até o Shopping Barra para comprar presente para esposa virginiana, minha mãe. Ele não tinha dinheiro, nem cheque ou cartão e, graças a um conhecido, que ligou pra minha mãe e avisou, ficou tudo bem. Ah, ele também não se lembrava de onde tinha estacionado o carro, mas estava ali, no lugar de sempre, no último piso, ao ar livre.

*

p.s.  Nunca me esquecerei do médico que cuidou de meu pai no Einstein, Dr. Guilherme Carvalhal (http://lattes.cnpq.br/1310002673242818). Quem sabe, nesses dias facebookianos, eu terei a oportunidade de encontrá-lo e cumprimentá-lo? : )

p.s2 O homem que ajudou meu pai quando ele desmaiou no prédio era nosso vizinho, pai de uma amiga da infância, Marianna, a Marianinha, que ano passado pude reencontrar por essas vias virtuais riovermelhenses. Fica registrado o agradecimento que sempre morou no coração de minha família. : )

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(Cartinha que enviei quando ele estava no Albert Einstein e eu com meus avós)

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(Eu, Inho e meu pai, na Escola Sol Maior)

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(Mainha, eu e o Dum)

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(A dupla!) 🙂

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(O amor)

Onde eu sofro melhor

15 fev

A humanidade está, em mim, de tal modo impregnada que não logro ser nada mais do que um beberrão construindo caráter, consolidando sofrimento. A covardia inerente de quem desiste, pois já se cansou, há muito, de tentar manter a boa fama. As verdades malditas desenhadas para sempre no espelho. Os arrependimentos ninando, em sádica melodia, tudo aquilo que nunca deveria ter sido dito. Essa mania de perdoar, mas gostar de enfiar o dedo na ferida, até sangrar. Essa mania de não ser perdoado… A loucura persegue e este beberrão aguarda, na mesa de um bar, o dia em que uma mísera ressaca irá lhe derrubar. Mediocridades acumuladas no tempo, convertendo-se em corte no pulso de quem não deseja morrer.  Neste bêbado não há resquício algum do homem que um dia eu fui.

Tanto fracasso eu destilei em porrada em minha mulher. Deveria mesmo ser preso, dizem que para isso há lei. E todo dinheiro que eu sempre contei para desconhecidos, no banco, nunca foi meu. Neste nível de incompetência, roubar o dinheiro da mãe doente e velha  não faria a menor diferença naquela visão que eu tinha do espelho. Apenas mais um canalha tentando sobreviver à própria sorte, com ajudinha daqui e dali, sempre com o copo na mão.  Ter que suportar a compaixão daquele garçom que reduzia a duas as sete doses de cachaça que tomei… Sentia náuseas. E na falta de coragem de voltar para casa e ter que lidar com as tragédias de um olho roxo, dormia com a puta suja da esquina que me acolhia por eu ser rapaz promissor, de banco. E acordar no meio dos ratos, os amigos. Porque amizade é, sem dúvida, a maior ilusão criada para nos consolar. Ratos. Não caio mais nessa. Desgraça de amigo até o primeiro romance com sua ex-mulher. Até aquela sociedade que deu certo e você nunca viu o verdinho.   Deixe-me com meus clichês bêbados. E com minhas putas, meus ratos.  Deixe-me com minha cachaça porque aqui eu sofro melhor. Me prenda, se quiser. Por causa de um tapinha de nada… Deus não sabe o que fez e só me resta ficar aqui, a pagar esta conta sozinho. Não quero caso. Depois desta pinga, traga um chope gelado, com colarinho. É que eu sou moço de banco.

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(Imagem: Anthony Gormley)

Culpa Minha

21 nov

Tava aqui procurando uns escritos em meus cadernos para uma  ~encomenda~. Daí que achei uma letra que escrevi em 2010, assim que voltei do Rio, depois de deixar a banda Matiz. Escrevi ela meio que de uma vez só e pretendia que fosse a primeira música a ser lançada do meu trabalho ~solo~. Achava que ela simbolizava bem o compromisso com tudo que tinha me envolvido até então e com aquilo que pretendia iniciar. Achava que a música seria meio mpb, meio grave, meio eletrônica, meio rock estranho. Achava que o nome dela poderia batizar o álbum,  até. Eu achava um monte de coisa.
Bem, não consegui concretizar o trabalho solo e fazer o álbum,  e eis-me aqui catando pra sobreviver nessa vida real, então, vou tratar de ~gastar~ essa letra aqui no blog.

 

CULPA MINHA

 

O dito e o perdido

o ombro e o grito

assino embaixo:

É culpa minha.

 

A hora errada

e todo acerto.

O que eu não acho

é culpa minha

 

É tudo meu:

os cantos, os versos

e a contradição.

A loucura é minha

e também minha condição.

 

São meus os homens

os nomes

é minha a traição

Os amores, os horrores

os temores

A tragédia é minha.

 

É meu o pai que não tenho

É meu o amor que não dou

É meu o sonho que traço

É minha a fé que acabou

É meu o choro, o lamento

E a coragem de seguir também

A amargura é minha

E o egoísmo é meu, só meu

de mais ninguém.

 

A glória que não gozei

O país que não visitei

O amor que implorei

Tudo é culpa minha

 

O livro que não escrevi

O futuro que não previ

A verdade que não ouvi

A culpa é toda minha.

 

Me deixe aqui

me ouça

não diga nada

não peço nada

não tenho nada

só a culpa

é minha.

 

 

(2010)

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Foto de Thaís Lehmann, mais em http://www.flickr.com/photos/thaislehmann/