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After hours

11 mar

O alarme toca, anunciando minhas urgências. A solidão é gaiola, a angústia hipnotiza e alimenta. A disposição está em outro quintal. Nada é novo, não tenho par e nunca me fizeram uma canção de amor.

Não me responsabilizo por esta dor: ela está aqui, mas não é minha, não a possuo. Minhas mãos tremem, minha consciência fede; mal sei narrar tamanha aflição. Admiro os bravos, admiro os livres, admiro os que calam – e os que gritam. No meu reino, sou vagabundo – e não há mente que suporte… Eu não sei reinar. Talvez seja isso. É isso, finalmente: não me falta apenas o brilho dos reis; falta-me a quietude do palácio, a petulância de quem governa, o silêncio dos segredos e me sobram sonhos, todos eles. Em  palácios não é permitido sonhar.

Eu, você, o outro. Voutro, ou, eocê. Vejo embaçado, tropeço as palavras, não consigo respirar. Palácio, barraco. Sonhos e solidão moram em todo lugar. É que da minha janela só vejo aquilo que convém…
O alarme retoma seu ritmo. É hora! É chegada a hora. Fui eu mesma quem o programou para tocar agora. Agorinha, neste mesmo instante; mas, sigo aqui , parada. Paralisada.
Estou grata por este rascunho, por este fio de inspiração, afinal, escrever tem de servir para algo- embora no final, como eu, não sirva mesmo para nada.
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( Foto/arte por Gaby Herbstein http://www.gabyherbstein.com/ )
p.s. não a conheço, encontrei através do Pinterest.

Culpa Minha

21 nov

Tava aqui procurando uns escritos em meus cadernos para uma  ~encomenda~. Daí que achei uma letra que escrevi em 2010, assim que voltei do Rio, depois de deixar a banda Matiz. Escrevi ela meio que de uma vez só e pretendia que fosse a primeira música a ser lançada do meu trabalho ~solo~. Achava que ela simbolizava bem o compromisso com tudo que tinha me envolvido até então e com aquilo que pretendia iniciar. Achava que a música seria meio mpb, meio grave, meio eletrônica, meio rock estranho. Achava que o nome dela poderia batizar o álbum,  até. Eu achava um monte de coisa.
Bem, não consegui concretizar o trabalho solo e fazer o álbum,  e eis-me aqui catando pra sobreviver nessa vida real, então, vou tratar de ~gastar~ essa letra aqui no blog.

 

CULPA MINHA

 

O dito e o perdido

o ombro e o grito

assino embaixo:

É culpa minha.

 

A hora errada

e todo acerto.

O que eu não acho

é culpa minha

 

É tudo meu:

os cantos, os versos

e a contradição.

A loucura é minha

e também minha condição.

 

São meus os homens

os nomes

é minha a traição

Os amores, os horrores

os temores

A tragédia é minha.

 

É meu o pai que não tenho

É meu o amor que não dou

É meu o sonho que traço

É minha a fé que acabou

É meu o choro, o lamento

E a coragem de seguir também

A amargura é minha

E o egoísmo é meu, só meu

de mais ninguém.

 

A glória que não gozei

O país que não visitei

O amor que implorei

Tudo é culpa minha

 

O livro que não escrevi

O futuro que não previ

A verdade que não ouvi

A culpa é toda minha.

 

Me deixe aqui

me ouça

não diga nada

não peço nada

não tenho nada

só a culpa

é minha.

 

 

(2010)

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Foto de Thaís Lehmann, mais em http://www.flickr.com/photos/thaislehmann/

Ninguém ama com dor de dente

21 ago

Há algo que eu acho absolutamente encantador nele: sua atração pelo alegre, pela leveza, pela paz.
Ele valoriza o presente como ninguém. Enquanto eu insisto em remoer o passado e enaltecer o futuro, enquanto eu anseio o improvável e sonho com o impossível, miro com fascínio sua habilidade em ser feliz. Hoje, agora. É certo que há, ali, também, algo expresso em lágrima, feito de mágoa e decepção; quanto a isso não há dúvida. Mas seu caráter tão decisivo em buscar da vida o que de melhor ela estiver guardando é de uma inteligência invejável. Enquanto isso, eu sigo achando a vida injusta e dura e fria, essa eterna sensação de que ela está me escondendo algo. Ele, não. Para ele não há muitos mistérios e as coisas são mais simples do que eu suspeitava. Assistir alguém cuidar de si com tamanha convicção é tão bonito e poético quanto assistir um amante cuidar do outro com zelo.

Uma vez me disseram: “Ninguém ama com dor dente”. (frase atribuída a Freud, se não me engano; mas pode ter sido,  perfeitamente, extraída do fundo de um caminhão). Naquela época eu não era capaz de perceber a precisão de sentido disso. Hoje, no entanto, me cai como uma luva: não há ninguém tão preparado para cuidar do outro como alguém que anda cuidando de si. Pois bem: esse é o meu lema, meu mantra, meu lembrete no post it, meu grito de alerta.

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Valentine de Willem de Kooning