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Nota 11 nov

Um rapaz sentando no banco lendo um livro- e não é a bíblia! Quase ao lado, um garoto solitário ensaia uma dor no violão. Duas bicicletas públicas fazem a volta e se beijam. Debaixo da árvore um jovem casal se apaixona e, no parquinho, crianças brincam de infância.

Todo poeta deveria morar em frente a uma praça. : )

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*Vejo letras, músicas e dezenas de fotografias. Definitivamente, não consigo me concentrar nos estudos aqui!

** “As vítimas são pessoas inteligentes, que pensam em vários assuntos ao mesmo tempo, mas sofrem com a dificuldade para organizar as idéias […] Entre os sintomas estão a dificuldade de concentração e de se planejar, baixa auto-estima e impulsividade – a pessoa pode falar muito, comer, gastar e até trabalhar muito, mas detesta seguir uma rotina.”  : p : D

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Santa Trindade

14 out

A constatação de que esta alma incerta busca apenas uma terra fértil para fincar raízes e construir proteção. De que é preciso vento frio, mar instável, mas é urgente a leveza de uma orla. O medo de que as angústias possam, pouco a pouco, ir consumindo este corpo jovem e cheio de vontade de caminhar. A frustração de não viver em dança ou entre loucos diagnosticados. O medo constante da loucura. O medo. A sensação de que o amanhã é alegre e pleno, mas a experiência de que tudo pode sempre não ser. A morte. A vontade de ser casulo, de ser festa, de ser amanhecer, de ser sexta-feira. A incompetência para os Domingos. As roseiras, as peneiras, as lavouras : minha santa Trindade.

 

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Itaparica, foto minha.

Ninguém ama com dor de dente

21 ago

Há algo que eu acho absolutamente encantador nele: sua atração pelo alegre, pela leveza, pela paz.
Ele valoriza o presente como ninguém. Enquanto eu insisto em remoer o passado e enaltecer o futuro, enquanto eu anseio o improvável e sonho com o impossível, miro com fascínio sua habilidade em ser feliz. Hoje, agora. É certo que há, ali, também, algo expresso em lágrima, feito de mágoa e decepção; quanto a isso não há dúvida. Mas seu caráter tão decisivo em buscar da vida o que de melhor ela estiver guardando é de uma inteligência invejável. Enquanto isso, eu sigo achando a vida injusta e dura e fria, essa eterna sensação de que ela está me escondendo algo. Ele, não. Para ele não há muitos mistérios e as coisas são mais simples do que eu suspeitava. Assistir alguém cuidar de si com tamanha convicção é tão bonito e poético quanto assistir um amante cuidar do outro com zelo.

Uma vez me disseram: “Ninguém ama com dor dente”. (frase atribuída a Freud, se não me engano; mas pode ter sido,  perfeitamente, extraída do fundo de um caminhão). Naquela época eu não era capaz de perceber a precisão de sentido disso. Hoje, no entanto, me cai como uma luva: não há ninguém tão preparado para cuidar do outro como alguém que anda cuidando de si. Pois bem: esse é o meu lema, meu mantra, meu lembrete no post it, meu grito de alerta.

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Valentine de Willem de Kooning

            

Todo mundo tem um nome, qual o seu?

28 maio

Eu tenho tendência a me lamentar. Me odeio por isso, é um dos meus traços mais desagradáveis, cansativos e embora lamento seja uma palavra belíssima, quando vira ação nos traz reações desagradáveis na mesma medida.
Foi pensando nisso que fui conversar com minha mãe sobre minha vontade-nunca-executada de exercer algum papel solidário.
Minha mãe sempre foi um grande exemplo de solidariedade, a começar pelo divertido caso repetido diversas vezes na família Ferreira: ela, pequena, quando perguntavam “O que você quer ser quando crescer?”, respondia; “Quero ser Santa“. Rio demais com essa história, porque mais sintomático, impossível.

Na minha infância visitávamos semanalmente orfanatos e asilos, fazia parte do programa de fim de semana planejado pela mamãe socióloga. Um pouquinho maior, chegou a época do sopão, quando íamos eu, Inho, meu pai e minha mãe distribuir sopa pela cidade. Às vezes ela vinha acompanhada de pão com goiabada – tenho esse detalhe registradinho, acho que por conta da cena de um mendigo jogando a goiabada fora e colocando lixo dentro do pão… Aquilo, claro, me marcou.
Já adolescente, criei o nunca-colocado-em-prática grupo GIS- Grupo de incentivo à solidariedade,  incrível analogia ao giz do quadro negro (tum tish pa!), já que a ideia da futura-publicitária-que-nunca-terminou-tal-faculdade era que o grupo fosse formado pelos alunos da escola.

Eu tava no sofá agorinha rememorando essas coisas com minha mãe. Ela me veio com várias lembranças emocionadas, entre elas um episódio da distribuição do sopão. Ela sempre tentava interagir com as crianças que recebiam o alimento; conversava, aconselhava, essas coisas. Um dia ela perguntou pra um dos garotos “Qual o seu nome?” e ele respondeu “Ninguém“. Minha mãe insistiu “Ué, ‘ninguém’ não é nome, todo mundo tem um nome, qual o seu?” e ele disse “Ninguém.” Minha mãe acatou e a partir desse dia começou a chamar o menino de Ninguém. E os trabalhos continuaram, a distribuição da sopa seguia e ouvíamos comentários comoventes como “A sopa vem mesmo quente!” ou “Tem carne, carne de verdade!“.

Minha mãe sempre encontrava Ninguém, conversava com ele, comprava remédios quando ele estava doente. Ele sempre num canto, sozinho. Um tempo se passou, até que um dia minha mãe chegou e falou “Oi, Ninguém, como vai?” e ele respondeu “Meu nome é Pedro“.

Essa história ela me contou com lágrimas nos olhos, aí ficamos nós duas, Ferreira-boba-mãe e Ferreira-boba- filha chorando que nem criança com o episódio encantador.

Enfim, a ideia é não dar margem à lamentação e gastar esse tempo inútil com uma dose de altruísmo. (Sugestões são bem vindas!)
Tá, ok, há algum interesse aqui: aprender com esses Pedros espalhados por aí o que quer que seja que me faça crescer, que me faça melhor e que não me deixe esquecer que tem gente com nada, gente com menos; que tem gente que nem é gente, é Ninguém.

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Eu com uns 15 anos e a Linda.