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Querido empresário,

4 dez

Para escrever esta “carta de apresentação”, como indicado no site, tentei viajar até as minhas impressões mais remotas. As minhas lembranças da fase escolar guardam muitos nomes, momentos e aprendizados. Sou capaz de me lembrar da professora da primeira série, por quem eu tinha muito carinho, ou a da quinta série, a quem culpei durante muitos anos ser responsável por minha primeira recuperação em matemática.

Está claramente registrada em minha memória a extrema timidez em qualquer atuação em sala de aula, a sensação de fracasso por nunca ter sido, de fato, uma aluna exemplar, por não conseguir dedicar muitas horas de atenção ao estudo, pela distração: as minhas fantasias e sonhos insistiam em me tomar nos momentos mais indevidos. Lembro-me de cada choro quando acabava fadada à insistente recuperação nas disciplinas exatas e, com a mesma intensidade, dos bilhetinhos em forma de poema que recebia de meu pai junto com a lancheira que eu havia esquecido em casa.

Meu pai, Paulinho Diniz, foi poeta, compositor, sambista, teve músicas gravadas por grandes nomes da MPB. (por uma ironia – coincidência?- do destino, hoje completo cinco anos de sua ausência definitiva). Eu cresci com esta sensação de que esta casa, feita de arte, era mesmo a minha. Passei a minha primeira infância cantando escondido – e com muito esforço, tentando encarar algum público, participando do que havia de mais prazeroso em minha escola: os tradicionais festivais de música e os corais – mas a timidez e a sensação de que poderia ser reprovada me intimidavam. Hoje, é nítida a importância da música em minha vida. Não me interessava a exatidão. Costumo dizer, inclusive, que se eu tivesse aprendido mais cedo que música e matemática pertenciam ao mesmo matiz, teria enfrentado alguns de meus fantasmas sem medo. Não me foram dadas oportunidades para ultrapassar este obstáculo, de perceber que era, sim, perfeitamente possível a superação deste problema. Eu quis, mas não encontrei espaço para mudar e, assim, meu destino acabou por não andar de mãos dadas com os números.

Esta paixão, posteriormente, ganhou da perversidade de se trabalhar com o que não se gosta, e eu acabei cantando. Caminhando e cantando. Minha mãe, que nunca me desaprovou e torceu por meu êxito, brincava: “Mariana canta, Paulinho toca e eu balanço a cuia, pra pegar o dinheiro.” O que aconteceu foi que, depois de me dedicar e priorizar a música por algum tempo, – indo morar no Rio de Janeiro, gravar um álbum e tentar a sorte – a cuia ficou fazia, o que me trouxe de volta a Salvador (2010), tentando levar à superfície minha outra paixão, a Educação, na tentativa de me sustentar com algo que me motivasse, já que minha formação em Letras tinha me dado, além de conhecimento, muita alegria. Não sem alguma subversão, é claro. Pretendo fazer da educação, canção. Isto me lembra um teórico da área educacional, quando diz que ” Pela imaginação o homem se afirma como um rebelde. Um rebelde que nega o existente e propõe o que ainda não existe. E assim, ‘a rebeldia é a pressuposição básica de qualquer ato criativo. Ao ordenar e plantar um jardim nos rebelamos contra a aridez da natureza. Ao lutar contra a enfermidade nos rebelamos contra o sofrimento. Dizemos uma palavra de alento porque nos rebelamos contra a solidão. (João Francisco Duarte Junior em “Fundamentos estéticos da educação.”)

Esta angústia me consome porque o que penso, fundamentalmente, sobre o processo educativo – e que tento fazer na prática – é que o mesmo deve ser capaz de: do ponto de vista do aprendizado, estimular a autonomia dos estudantes, o espírito investigativo, reflexivo; motivar a busca de saberes multi e transdisciplinarmente e deve, sobretudo, discutir a diversidade, as diferenças, considerar os contextos de vida, buscar a reflexão sobre os sentidos e os significados das escolhas e seus desdobramentos sobre o cotidiano. Parece-me, às vezes, que tais janelas não foram abertas e que minha escola não foi mais do que uma casa de portas fechadas.

Toda vez que tento rememorar acabo, sempre, caindo na armadilha de enxergar muito mais o lado ruim. Ajo como uma amadora que tende a culpar os pais de maneira imediata e muito superficialmente. Mas é que neste momento eu tenho voz e, assim, parece que meu passado pode me ouvir. Não é desta maneira que mudamos o futuro?

Enfim, durante minha jornada foi a literatura que me fez confiar no tempo. E nos meus tempos. Basta-me paciência para esperar o tempo em que estarei, definitivamente, trabalhando e me sustentando com o que realmente gosto. (Eis-me aqui, fingindo respeitar o tempo quando me entrego inescrupulosamente à ansiedade).

Hoje, depois de algumas tentativas de ingresso regular no mestrado – em que passo em todas as etapas, mas perco na avaliação do anteprojeto, o que denuncia sua fragilidade – venho tentando descobrir os caminhos que minha pesquisa irá tomar. A pós graduação em Educação, as disciplinas de Mestrado que cumpri como aluna especial e a minha experiência profissional na área de comunicação e cultura acabaram por me indicar um caminho. O que eu sabia, até então, era que queria atuar em Educação, entrelaçá-la com arte, tratar, potencialmente, das questões de exclusão e, isto tudo, no cenário dos direitos humanos, da diversidade. É inegável a influência de minha mãe neste processo, socióloga e mestre em educação e pluralidade cultural  (tratando da educação indígena); ela trabalha cotidianamente com tais questões, o que me incentiva e me orgulha.

O que posso acrescentar sobre mim e minha vida real é que o último ano trouxe mais um aprendizado aclarador: na exaustiva e cruel preparação para concurso público (focado para os Tribunais Regionais do Trabalho) tive acesso a um conhecimento no qual jamais pude crer que algum dia iria me afinar: não somente o estudo jurídico, das disciplinas do direito, mas, sobretudo, o direito do trabalho. A grata surpresa de ver na letra da lei o quanto tudo isto é/pode ser ligado à educação foi surpreendente e animador. É preciso registrar, ainda, o quanto esta jornada preparatória me ensinou sobre mim, sobre minhas armas e minhas fragilidades; o quanto lidar diariamente com o próprio espelho me fortaleceu, me deu coragem e persistência, embora tenha sido, naturalmente, um processo de muita dor.

Bem, finalizo reconhecendo um defeito notório que tenho: sou prolixa. Nas minhas circunstâncias, também não posso negar: tenho urgência. Mas cultivo a esperança de que nestas linhas esteja clara a minha paixão, a minha vontade, a minha sede. Espero, profundamente, que haja aí, na sua empresa, uma sala, uma cadeira, uma esquina, uma rua ou janela em que eu possa atuar.

Muito grata pela atenção,

Mariana Diniz

miagra4

(Foto: Paulinha Barreto; Instagram: @paulinhabar )