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After hours

11 mar

O alarme toca, anunciando minhas urgências. A solidão é gaiola, a angústia hipnotiza e alimenta. A disposição está em outro quintal. Nada é novo, não tenho par e nunca me fizeram uma canção de amor.

Não me responsabilizo por esta dor: ela está aqui, mas não é minha, não a possuo. Minhas mãos tremem, minha consciência fede; mal sei narrar tamanha aflição. Admiro os bravos, admiro os livres, admiro os que calam – e os que gritam. No meu reino, sou vagabundo – e não há mente que suporte… Eu não sei reinar. Talvez seja isso. É isso, finalmente: não me falta apenas o brilho dos reis; falta-me a quietude do palácio, a petulância de quem governa, o silêncio dos segredos e me sobram sonhos, todos eles. Em  palácios não é permitido sonhar.

Eu, você, o outro. Voutro, ou, eocê. Vejo embaçado, tropeço as palavras, não consigo respirar. Palácio, barraco. Sonhos e solidão moram em todo lugar. É que da minha janela só vejo aquilo que convém…
O alarme retoma seu ritmo. É hora! É chegada a hora. Fui eu mesma quem o programou para tocar agora. Agorinha, neste mesmo instante; mas, sigo aqui , parada. Paralisada.
Estou grata por este rascunho, por este fio de inspiração, afinal, escrever tem de servir para algo- embora no final, como eu, não sirva mesmo para nada.
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( Foto/arte por Gaby Herbstein http://www.gabyherbstein.com/ )
p.s. não a conheço, encontrei através do Pinterest.
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Onde eu sofro melhor

15 fev

A humanidade está, em mim, de tal modo impregnada que não logro ser nada mais do que um beberrão construindo caráter, consolidando sofrimento. A covardia inerente de quem desiste, pois já se cansou, há muito, de tentar manter a boa fama. As verdades malditas desenhadas para sempre no espelho. Os arrependimentos ninando, em sádica melodia, tudo aquilo que nunca deveria ter sido dito. Essa mania de perdoar, mas gostar de enfiar o dedo na ferida, até sangrar. Essa mania de não ser perdoado… A loucura persegue e este beberrão aguarda, na mesa de um bar, o dia em que uma mísera ressaca irá lhe derrubar. Mediocridades acumuladas no tempo, convertendo-se em corte no pulso de quem não deseja morrer.  Neste bêbado não há resquício algum do homem que um dia eu fui.

Tanto fracasso eu destilei em porrada em minha mulher. Deveria mesmo ser preso, dizem que para isso há lei. E todo dinheiro que eu sempre contei para desconhecidos, no banco, nunca foi meu. Neste nível de incompetência, roubar o dinheiro da mãe doente e velha  não faria a menor diferença naquela visão que eu tinha do espelho. Apenas mais um canalha tentando sobreviver à própria sorte, com ajudinha daqui e dali, sempre com o copo na mão.  Ter que suportar a compaixão daquele garçom que reduzia a duas as sete doses de cachaça que tomei… Sentia náuseas. E na falta de coragem de voltar para casa e ter que lidar com as tragédias de um olho roxo, dormia com a puta suja da esquina que me acolhia por eu ser rapaz promissor, de banco. E acordar no meio dos ratos, os amigos. Porque amizade é, sem dúvida, a maior ilusão criada para nos consolar. Ratos. Não caio mais nessa. Desgraça de amigo até o primeiro romance com sua ex-mulher. Até aquela sociedade que deu certo e você nunca viu o verdinho.   Deixe-me com meus clichês bêbados. E com minhas putas, meus ratos.  Deixe-me com minha cachaça porque aqui eu sofro melhor. Me prenda, se quiser. Por causa de um tapinha de nada… Deus não sabe o que fez e só me resta ficar aqui, a pagar esta conta sozinho. Não quero caso. Depois desta pinga, traga um chope gelado, com colarinho. É que eu sou moço de banco.

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(Imagem: Anthony Gormley)

Santa Trindade

14 out

A constatação de que esta alma incerta busca apenas uma terra fértil para fincar raízes e construir proteção. De que é preciso vento frio, mar instável, mas é urgente a leveza de uma orla. O medo de que as angústias possam, pouco a pouco, ir consumindo este corpo jovem e cheio de vontade de caminhar. A frustração de não viver em dança ou entre loucos diagnosticados. O medo constante da loucura. O medo. A sensação de que o amanhã é alegre e pleno, mas a experiência de que tudo pode sempre não ser. A morte. A vontade de ser casulo, de ser festa, de ser amanhecer, de ser sexta-feira. A incompetência para os Domingos. As roseiras, as peneiras, as lavouras : minha santa Trindade.

 

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Itaparica, foto minha.

Ninguém ama com dor de dente

21 ago

Há algo que eu acho absolutamente encantador nele: sua atração pelo alegre, pela leveza, pela paz.
Ele valoriza o presente como ninguém. Enquanto eu insisto em remoer o passado e enaltecer o futuro, enquanto eu anseio o improvável e sonho com o impossível, miro com fascínio sua habilidade em ser feliz. Hoje, agora. É certo que há, ali, também, algo expresso em lágrima, feito de mágoa e decepção; quanto a isso não há dúvida. Mas seu caráter tão decisivo em buscar da vida o que de melhor ela estiver guardando é de uma inteligência invejável. Enquanto isso, eu sigo achando a vida injusta e dura e fria, essa eterna sensação de que ela está me escondendo algo. Ele, não. Para ele não há muitos mistérios e as coisas são mais simples do que eu suspeitava. Assistir alguém cuidar de si com tamanha convicção é tão bonito e poético quanto assistir um amante cuidar do outro com zelo.

Uma vez me disseram: “Ninguém ama com dor dente”. (frase atribuída a Freud, se não me engano; mas pode ter sido,  perfeitamente, extraída do fundo de um caminhão). Naquela época eu não era capaz de perceber a precisão de sentido disso. Hoje, no entanto, me cai como uma luva: não há ninguém tão preparado para cuidar do outro como alguém que anda cuidando de si. Pois bem: esse é o meu lema, meu mantra, meu lembrete no post it, meu grito de alerta.

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Valentine de Willem de Kooning