Après-coup

17 abr

Tá, eu voltei a fazer terapia.
Acho tão chic falar assim: “Faço terapia”. Parece coisa de rico. Mas, bem, zero glamour, por aqui: fazer análise é caro, olhar fundo nos olhos de um desconhecido é desconcertante e deitar no divã dói.
Mas, olha, há algo fundamental que me trouxe de volta a uma sessão: a convicção de que a análise, um dia, me trouxe claridade. E eu estava mesmo precisando enxergar melhor.

Algumas questões e sentimentos me levaram até a psicanálise, da primeira vez; o medo foi, sem dúvida, o ponto de partida. Mas, em seguida, vieram os questionamentos acerca do desejo, da angústia, da melancolia, da ansiedade… E eu ainda era uma menina novinha que acabara de ler “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir, e Freud não era, portanto, uma figura por quem eu tinha, exatamente, simpatia. – Curioso como tempo, disposição e profundidade são capazes de mudar conceitos que temos sobre determinados sujeitos.- Bem, vocês já imaginam: Dr. Freud virou meu guia para alguns dos mistérios (sobre mim mesma) que eu precisava desvendar.

Essa minha ligação com a arte, a afinidade acolhedora que encontrei na literatura, a sensação de conforto com as palavras, tão doídas, tão cortantes como as de alguns escritores acabaram por me ninar- afinal, uma pessoa que tem como sua bíblia “O livro do desassossego”, de Bernardo Soares (F.Pessoa), como eu, só poderia ter muito a resolver.
Veja bem, no início deste processo todo eu culpei meus pais, é claaro, hehe, mas, hoje, culpo a literatura.

***

Eu e a minha irmã, que é mais velha do que eu e nunca morou comigo, curiosamente é leonina, como eu, medrosa, como eu, corajosa, como eu (e pode? Rs), e, de analisada, acabou fazendo a formação psicanalítica, apesar  de não exercer em consultório. Caminho que eu quase segui, não fosse a minha caminhada torta pelas artes e pela Academia. Aqui em casa tem um livro presenteado por ela, chama-se “Em que creem os que não creem?”, uma coletânea de diálogos entre um ateu e um crente, Umberto Eco e Carlo Maria Martini. Eco, em uma de suas falas, suspeita: “Mas a força dos fantasmas está justamente em sua irrealidade.” (p.15). O que me remete, imediatamente, a Borges, em “O Aleph”: Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real”. E Pessoa, gente, Pessoa!:  A literatura, que é arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror (2004, p. 68). Vocês conseguem sentir a sequência lógica nisso tudo? Vocês percebem como literatura e psicanálise estão, aqui, entrelaçados, ou eu estou mesmo ficando doida? Já me diria uma ex sogra, (adivinhem!), psicanalista: “Não fica louco quem quer”. Daquelas chacoalhadas que a gente precisa ter, para acordar.

*
Guimarães Rosa, na voz de Riobaldo, repetia, incansável: “Viver é muito perigoso…” (G.S. Veredas);
Borges, em seu personagem assustado: “Viver, para mim, é um espanto muito grande.”; e Mário de Andrade, bravejava que a arte “não é só beleza; por mais pensada, é feita com carne, com sangue, espírito e tumulto de amor (Espinheira, 2001).
Assim também é a vida, mas não confundam. Hoje eu sou só devaneio.

.

 

Image

p.s. As referências não estão nas normas ~da ABNT~ porque isso não é um trabalho acadêmico, mas se alguém quiser tê-las, email me! ; )

 

p.s2 nesta minha anarquia, os grifos também são meus : )

 

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4 Respostas to “Après-coup”

  1. Judith 17 de abril de 2013 às 0:59 #

    De tudo isso, fico como espanto. Espanta saber como as coisas vão e vêm, como os gênios dizem de nós bastante mais que nós mesmos seríamos capazes de até descobrir, quanto mais dizer, e que tudo é tão simples. Fique louquinha, sim, pense tudo, misture tudo e diga o que quiser. E vc será, ainda mais, uma linda doidinha…

  2. Jaime Dias 17 de abril de 2013 às 1:03 #

    sinto-me extremamente invasor em seu blog, todo o resto não posso dizer nada, mas parabéns pelos grifos! 🙂 (e, novamente, perdão pela invasão)

  3. Belle Mojás 17 de abril de 2013 às 7:12 #

    Heheheheh…adorei o devaneio! Terapia é mesmo um saco no estômago! Mas eu recomendo a todos!

  4. Sonja 21 de abril de 2013 às 15:34 #

    Ainda bem que a fase “culpar os pais” já passou. Ufa! É um alívio. Fique com a literatura, é melhor negócio, como seus “devaneios” mostram tão bem, pois, como diz Chinua Achebe: ” …como contraponto à afirmação tão em moda, feita até mesmo por escritores, de que a literatura nada pode fazer para mudar nossa condição social e política. É claro que pode!”

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